OS TEXTOS ESCOLHIDOS PARA ESTA ATIVIDADE ERAM TRÊS
A TAPEÇARIA DE ARACNE - ANA MARIA MACHADO
O CASO DO ESPELHO - RICARDO AZEVEDO
COMO NASCERAM AS ESTRELAS- CLARICE LISPECTOR
VAMOS AO PRIMEIRO:
A
TAPEÇARIA DE ARACNE
Ana Maria Machado
Há muito, muito tempo, na Grécia Antiga, contavam que Palas, a deusa da sabedoria (que mais tarde os romanos chamariam de Minerva), ensinava todos os segredos de fiação e tecelagem a uma moça chamada Aracne.
Aracne
era de origem humilde, mas se tornou tão habilidosa com fios e tramas que até
as ninfas dos bosques e dos rios vinham vê-la trabalhar. Não só porque os
tecidos que fazia eram incomparáveis, mas até porque a graça de seus movimentos
tinha a beleza de uma arte, desde que puxava os chumaços de lã ou cânhamo até
quando fazia novelos e meadas. E, principalmente, depois, quando a linha macia
e longa se convertia em belos panos num tear ou era ricamente bordada em
desenhos divinos. Divinos, sim. Pois todos os que viam o trabalho de Aracne
logo concluíam que ela aprendera seu ofício com Palas, e cobriam a deusa de
louvores.
Ora,
quanto mais atenção atraía, mais Aracne se ofendia com os elogios a Palas e
negava qualquer mérito à deusa. Até que certo dia acabou exclamando:
Sou
muito melhor tecelã que Palas! Se ela viesse competir comigo, todos iam ver
isso. E, se me vencesse, poderia fazer comigo o que quisesse.
Antes
de aceitar o desafio, a deusa se disfarçou e veio visitar Aracne sob a forma de
uma velha, aconselhando-a a respeitar a experiência e a sabedoria dos anciãos e
a reconhecer a superioridade dos deuses.
—
Se você se arrepender de suas palavras e pedir perdão, tenho certeza de que
Palas a perdoará — disse.
—
Você está é de miolo mole, sua velha. Quer dar conselho? Vá procurar suas
netas… Eu me defendo sozinha. Palas tem medo de mim. Se não tivesse, já teria
vindo me enterrar.
A
velha deixou cair o disfarce e se revelou em todo o seu esplendor:
—
Pois Palas veio, sua tonta!
As
ninfas e todas as mulheres se prostraram diante da deusa, mas Aracne manteve
seu desafio.
Sem
perder tempo, cada uma das duas foi para um canto do enorme salão, com seus
novelos, meadas, fios e seu tear.
Durante
muito tempo, uma belíssima tapeçaria foi surgindo em cada tear. Palas fez
questão de ilustrar em seu bordado todas as histórias de mortais que tinham
desafiado os deuses e os terríveis preços que tiveram de pagar por isso.
Aracne, por outro lado, mostrou em sua tapeçaria os inúmeros crimes que os
deuses já tinham cometido, recriados com exatidão e minúcia de detalhes. Cada
uma, ao final, rematou seu trabalho com uma preciosa moldura tecida.
Ninguém
se surpreendeu com a perfeição da obra de Palas. Mas quem ficou surpresa foi a
deusa, pois, por mais que procurasse o mínimo defeito na obra de Aracne, não
conseguiu encontrar uma única falha. Com raiva, bateu várias vezes com seu
bastão na testa da tecelã.
Não
suportando a dor, Aracne passou um fio no pescoço para se enforcar. Mas Palas
teve pena e a segurou, suspensa no ar, dizendo:
—
Você tem má índole e é vaidosa, mas tenho que respeitar sua arte. Não admito
que morra. Porém, você e seus descendentes viverão sempre assim, suspensos o
tempo todo.
E,
ao partir, borrifou-lhe uma poção que fez o cabelo da moça cair, a cabeça e o corpo
encolherem, os dedos crescerem, e a transformou para sempre numa aranha,
condenada a fabricar fio e teia até o final dos tempos. Sempre com perfeição
incomparável.
Fonte:
Revista
Nova Escola

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